Ontem desapareceu uma personagem
incontornável da história contemporânea portuguesa. Podemos gostar dele ou não.
Eu, pessoalmente votei a maior parte das vezes, mais à direita, a favor dos
adversários de Mário Soares, por isso sinto-me isento, para agradecer tudo o
que Mário Soares fez por Portugal. É certo que tem algumas zonas (muito?)
cinzentas, nomeadamente a descolonização, mas não é decerto por algumas
decisões menos boas, tomadas em momentos muito conturbados, que lhe deixo de
reconhecer todo o seu mérito, não só no plano nacional, mas sobretudo no plano
internacional, o que prova que estamos perante uma português de elevada
estatura, craveira e disponibilidade, para os combates que teve ao longo da sua
vida. Fez na vida o que gostou – ser político, mas político a sério, não são
estes políticos de aviário de hoje. Portugal até teve verdadeiros homens de
combate e convicções nessa altura: Álvaro Cunhal, Sá Carneiro, Adelino Amaro da
Costa, entre tantos outros, cada um com o seu percurso e história. O tempo
encarrega-se de repor a verdade e os factos na sua verdadeira dimensão, assim,
o que mais agradeço a Mário Soares, foi a sua coragem na primeira dezena de
anos da revolução, quando o partido comunista tinha como único objectivo, que
até seria louvável nos seus fundamentos ideológicos, mas que mais não passou da
destruição gratuita do aparelho produtivo industrial e agrícola, assim como do
tecido empresarial, o que nos provocou a primeira banca rota e um desvario de
que tudo seria fácil, fazendo-nos atrasar em dez anos, aquilo que tínhamos
conseguido evoluir, muito lentamente, nos últimos 20 anos antes da revolução.
Valeu na altura a frontalidade, a coragem e o prestígio internacional de Mário
Soares, para ainda hoje podermos fazer a contagem da nossa nacionalidade, desde
os tempos de Afonso Henriques. Se não tem sido o seu papel, na melhor das
hipóteses, hoje provavelmente seriamos mais uma província de Espanha (com menos
peso que a Andaluzia, que com cerca de 7 milhões de habitantes, tem um PIB,
superior ao nosso). Podemos não gostar dele, podemos não estar de acordo com
ele, mas nada nos dá motivo, para vangloriarmos a sua morte, nem escamotear a
sua importância. O seu papel merece respeito e recato, especialmente neste
momento de luto. O mundo não é que queremos que seja, o mundo é que é, e o
facto de a nível nacional e internacional, vermos um Português ser reconhecido
pelo seu mérito, merece o nosso respeito e o meu orgulho! Vai em paz, Mário
Soares, foste fixe.