sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A CIDADE PROSTITUTA


Num recente passeio a pé pela cidade de Lisboa, fiquei totalmente deprimido, o que é uma coisa rara em mim. Numa passeata algures entre o Rego e Santos, via Av. da República, Saldanha, Estefânea, Gomes Freire, Campo Santana, Martim Moniz, Praça da Figueira, Rua Augusta, Praça do Município, Cais do Sodré, Santos, São Bento, Príncipe Real, Misericórdia e Rossio, encontrei uma cidade suja, abandonada, mal cheirosa, triste, desconsolante, cheia de obras e vazia de vida, cor e alegria. As pessoas, tristes e surumbáticas – já não existe gente bonita, no sentido de limpa, educada, alegre e galante – circulavam como autómatos, em busca do seu destino, sem qualquer olhar para aquilo que as rodeia. Também é verdade que não têm muito para ver, pois a cidade está deprimente, sem vida de bairro, onde tudo se vende ou aluga. Com grande mágoa, reconheço que não consigo ter orgulho na minha cidade, de tão feia que está; parece que até a luz já não é a mesma. Esta mesma cidade onde cresci e me tornei homem, que tantas alegrias me deu, de dia e de noite, em todos os bairros de Lisboa, mais ricos ou menos nobres, está hoje moribunda, como se ninguém se preocupasse com ela – é o trânsito, caótico e desordenado (quando temos uma rede de transportes tão boa!), são as obras sem qualquer respeito pelos peões e/ou condutores, é o comércio tradicional todo fechado e o que resta, salvo honrosas excepções, a definhar a uma velocidade vertiginosa. Horror! Mágoa! Tristeza! Lágrimas!
Tenho um enorme respeito, por todas as formas de sobrevivência, desde que legitimas e conquistadas com esforço, mesmo aquelas que à priori podem ser consideradas menos nobres; a prostituição é uma delas. Sobre este tópico, até o velhinho Cais do Sodré está bafiento e completamente degradado. Neste meu passeio, reparei numa prostituta anciã no Cais Sodré, que ainda acredita que o seu velhinho corpo lhe poderá dar algum sustento. Senti pena dela, pela positiva, no sentido de a admirar pelo seu esforço e tenacidade, escondendo uma (provável) triste história de vida, mas sem clientes, sem futuro e sem esperança. A imagem desta senhora, é a melhor comparação que posso dar pela cidade de Lisboa. É usada de segunda a sexta, das 9 às 19, por milhões de pessoas, basicamente do terciário, que no final do dia saiem dela (cidade) e regressam aos seus caixotes de dormir nos arredores, deixando para trás uma cidade a definhar. Dia após dia, a cidade vai ficando mais degradada e sem futuro. As cidades são as pessoas que nela vivem, trabalham, investem e consomem o seu dinheiro. Se estes quatro vectores não funcionarem as cidades definharão.
Mas este fenómeno de Lisboa é extensivo a todo o Portugal – basta ver as assimetrias interior litoral. Que fazer? Uma verdadeira política de incentivo à fixação, livre das especulações imobiliárias, das burocráticas (para não dizer corruptíveis) facilidades de instalação das indústrias, fomentando uma correcta e equilibrada distribuição das pessoas pelo nosso Portugal, aonde todos ganharíamos com isso. Nós até já temos umas excelentes infra-estruturas de comunicação. Porquê insistir na burrice de irmos todos para o mesmo sítio e nem sequer usufruirmos das nossas cidades e vilas?

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